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O que é ser “do ramo” no jornalismo?

Comecei minha carreira de jornalista num tempo em que se dizia que alguém ou era do ramo ou não era. Àquela época, pouco mais de 20 anos atrás, ainda ouvia-se o barulho das pretinhas – pelo menos na redação de Veja em 1986. As pessoas com quem convivi e trabalhei ao longo dos anos acabaram por me convencer de que eu era “do ramo”. Até aí, nada demais, pois eu fazia apenas o que era minha obrigação: apurar corretamente as matérias, escrever com correção (tentando imprimir algum estilo ao texto) e editar com critério. Criatividade, se houvesse, era lucro. Pois fiz assim durante anos. Até que um dia, no começo do ano 2000, decidi mergulhar de cabeça após ouvir o canto da sereia internet.

Como muitos que se arriscaram nesse mar aparentemente calmo que acabou se mostrando revolto, engoli muita água, quase me afoguei, passei um breve período como náufrago numa ilha deserta, mas fui resgatado com vida. Isso me fez acreditar novamente que é possível explorar esse oceano chamado internet e encontrar tesouros escondidos. Apesar do risco de chocar-se com um iceberg ou um recife.

Mas não é sobre essa vida de marinheiro que quero refletir. Quero falar sobre o grande aprendizado que a internet proporciona. Não estou me referindo à “reinvenção” do jornalismo sob a ótica desta mídia online; nem tampouco às infinitas possibilidades de convergência de meios (tv, cinema, música, vídeo, dvd, mp3) ou de interatividade e conteúdo colaborativo que a plataforma web possibilita.

Quero falar das lições que o trabalho com web possibilita, na prática, aos jornalistas. Quando me recordo do diálogo de surdos que havia entre a redação e a área comercial dos jornais e revistas em que trabalhei, dou vivas à revolução patrocinada pela internet, provando que essa relação não precisa ser tão delicada. Em alguns casos, havia um monólogo: exemplo melhor é do famoso diretor de redação de revista semanal que recebia o diretor comercial na sua sala, continuava digitando em seu computador durante a “conversa” e sequer travava contato visual com o outro. E essas visitas não duravam, nunca, mais que 5 minutos!

Nas pontocom, jornalistas puderam aprender a ver o marketing e a publicidade como uma peça absolutamente necessária para a sobrevivência do negócio e interdependente do que se costuma chamar de “conteúdo”. Sorte de quem aprendeu a lição. Pois não apenas deixou de odiar os colegas do marketing como percebeu que, trabalhando juntos, a soma de experiências e de repertórios resulta em idéias e produtos muito mais criativos.

Quando encontro amigos que trabalham na old media, ainda ouço alguns queixumes sobre “o pessoal da publicidade” e suas incansáveis tentativas de interferir no editorial. Esse passo já foi dado na internet – ainda bem. Mas não sei dizer qual será o próximo passo na evolução do meio online.

Talvez seja colocar um pé atrás, para que se defina com clareza os limites éticos dessa integração. Pois o internauta (ou leitor, ou ouvinte, ou telespectador, enfim, consumidor de mídia) pode ser tudo, menos burro. E ele percebe quando se força a barra naquilo que está publicado ou naquilo que é veiculado. A resposta de como se dará esse “filtro ético” ainda não temos. Melhor deixar a pergunta (e a reflexão) no ar.

Depois de duas décadas de profissão, concluí que jornalista bom tem de ser um cara “do ramo”. Mas atenção: esse “ramo” é que mudou muito. Hoje em dia, alguém do ramo tem de produzir conteúdo, mas também entender de tecnologia, de navegabilidade, de design, de comércio eletrônico, do modelo do negócio, de marketing. E não tenho dúvidas de que, para se buscar o tal filtro ético que talvez ainda nos falte, o fato de o profissional ser “do ramo” ajuda. E ajuda muito.

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Publicado por em 14/10/2008 em Uncategorized

 

O pecado (quase) mortal da Bloomberg

Virou notícia no mundo todo o obituário de Steve Jobs publicado erroneamente pela agência Bloomberg no dia 28 de agosto. O erro da agência não é novidade no meio jornalístico: não são tão raras as vezes em que uma personalidade foi “morta” antecipadamente pela imprensa. A falha é inerente à atividade humana. No caso da Bloomberg, as observações contidas no texto publicado – sobre pessoas na Apple a serem contatadas no dia da morte de Jobs e as informações factuais substituídas por espaços ocupados por XXX – aumentam ainda mais o impacto do erro cometido.

Mas é importante ressaltar aos leitores em geral – e àqueles jornalistas que ainda não passaram por uma redação – que é prática comum a produção de obituários. Não, não se trata de qualquer tipo de mau agouro por parte de jornalistas (embora seja verdade a máxima do jornalismo americano de que “good news are bad news”). A preparação de um obituário, assim que determinada personalidade apresenta sinais de graves problemas de saúde, é que permite aos veículos de comunicação – especialmente aos jornais, que têm seu dia-a-dia tão corrido – uma cobertura da carreira dessas pessoas à altura de sua importância.

Os exemplos de como a imprensa tratou recentemente as mortes do compositor Dorival Caymmi e do banqueiro Olavo Setúbal são emblemáticos. Boa parte do material publicado já estava antecipadamente preparada pelas redações. E não há nenhum mal nisso. Da mesma forma que uma redação planeja antecipadamente grandes coberturas – como uma Olimpíada, uma Copa do Mundo ou as eleições – as edições com obituários de personalidades são planejadas (e escritas) com antecedência. Trata-se, é verdade, de uma postura fria por parte do jornalista, mas compreensível.

Certa vez, quando trabalhava na área de Cultura do Jornal da Tarde, à época em que o jornal estava completando 30 anos de fundação, destaquei uma repórter para levantar as grandes matérias produzidas naquele período, para serem incluídas em uma edição especial comemorativa. A repórter voltou com uma constatação: a maioria das grandes (e boas) matérias publicadas eram obituários de grandes nomes do mundo artístico – como o compositor Cartola (1980) e o escritor João Cabral de Melo Neto (1999). O episódio mostra que a antecipação no preparo do material de arquivo (escolha de fotos e elaboração do texto) atinge seu objetivo: resulta em uma boa edição.

Apesar de bem-sucedida, a estratégia da preparação antecipada de material pode gerar outros dilemas para os editores. Também no JT, vivenciei uma experiência peculiar a respeito. Em 1992, o ator Grande Otelo foi internado às pressas com suspeita de problemas no coração. Destacamos, sem hesitar, o crítico Edmar Pereira para produzir o obituário do artista (Edmar foi um dos melhores críticos de cinema da história do jornalismo brasileiro). Otelo recuperou-se, e ainda teve saúde para fazer uma participação especial na novela ‘Renascer’, de Benedito Ruy Barbosa, no ano seguinte. Mas o destino fez com que o jornalismo perdesse o talento de Edmar Pereira em meados de 1993.

Em novembro daquele ano de 1993, Grande Otelo sofreu um ataque do coração fulminante, na França, onde estava para receber uma homenagem do Festival de Nantes, e a redação viu-se diante de um dilema. Ou publicava sem assinatura o texto de Edmar Pereira, que estava brilhante como sempre (e que poderia ter a autoria identificada pelos leitores mais atentos); ou mostrava transparência para os leitores, revelando que o texto fora escrito pelo crítico também já falecido. A decisão foi difícil e ousada, mas acertada: o JT “explicou” ao leitor que a matéria sobre a carreira de Grande Otelo havia sido escrita pelo crítico Edmar Pereira um ano antes, por ocasião da internação do ator. Acabou resultando não apenas num texto memorável, como funcionou como uma “homenagem póstuma” a um de seus maiores críticos.

A produção de uma matéria antecipada, com o obituário de uma personalidade, não significa nada além de um planejamento antecipado de edições. Não significa mau agouro e tampouco mau jornalismo. O erro cometido pela Bloomberg foi grave e denota mais um problema estrutural das redações, decorrente da redução de pessoal e da chamada “juniorização”.

Pior que esse erro são os erros de apuração que podem fazer com que uma notícia errada acabe publicada. Em 1999, chegou às redações dos jornais a notícia de que o escritor Zuenir Ventura havia morrido em um acidente de carro na Lagoa Rodrigo de Freitas. O próprio Zuenir tratou de ligar para as redações, de forma bem-humorada, desmentindo a notícia de sua morte. Explicou que o primeiro repórter queria fazer uma entrevista com ele e telefonou para um número que não mais lhe pertencia, e a mulher que atendeu ao telefone se identificou como empregada da casa do autor de ‘1968 – O ano que não terminou’ e deu a informação errada sobre o acidente.

Como àquela época a internet engatinhava no Brasil, evitou-se uma propagação maior da notícia falsa. Mas mesmo se o próprio Zuenir não tivesse tratado de ligar para as redações desmentindo a sua morte, manda o bom jornalismo que se apure com rigor qualquer informação antes de publicá-la.

O pecado da Bloomberg foi grave, mas pior é o erro da falta de apuração da notícia.

Renato Delmanto

(Artigo publicado originalmente no site Observatório da Imprensa)
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=502IMQ006

 

Definição de Bossa Nova

Definição cunhada pelo compositor Carlos Lyra a respeito dele próprio (e por conseguinte, dos demais representantes da Bossa Nova, que viviam na Zona Sul do Rio de Janeiro) durante entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura:
“Eu era socialmente burguês, politicamente proletário e esteticamente aristocrata.”
E essas três classes não geravam um conflito interno? – perguntou o apresentador Carlos Eduardo Lins da Silva.
“Não”, respondeu Lyra. “Digamos que elas tinham uma convivência pacífica”.

Vale lembrar que Lyra (e a maioria de seus pares de então) era estudante universitário de classe média alta da Zona Sul carioca, simpatizante ou participante de movimentos culturais de esquerda, como o Teatro de Arena, e apreciador das belas artes.

Melhor definição, impossível.

Renato Delmanto
 
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Publicado por em 31/03/2008 em Uncategorized

 

O crítico de ‘Ratatouille’

Quem assistiu ao desenho animado ‘Ratatouille’, da Disney/Pixar, entende perfeitamente por que os adultos o adoram.

Como jornalista, destaco a sutileza e a genialidade com que o sisudo crítico descreve a sensação proustiana que vivenciou no restaurante do desenho, o Gusteau’s.

Não quero aqui contar o fim do filme àqueles que não o assistiram, mas revelo o seguinte: o chefe ao qual ele se refere no texto é o rato Remy, o protagonista da obra.

Quem já foi editor de Gastronomia (como eu) não pode se furtar de comentar e admirar a sensibilidade de quem escreveu o texto abaixo, a crítica do Gusteau’s. Divirtam-se:

***

“De certo modo, o trabalho de um crítico é fácil. Arriscamos pouco, gozamos de uma posição privilegiada sobre quem entrega o seu trabalho e a si mesmo ao nosso julgamento. Vingamos nas críticas negativas, que são divertidas de escrever e de ler.

Mas a verdade amarga que temos de enfrentar é que, no quadro geral, as refeições medianas são talvez mais importantes do que o que admitimos nas nossas críticas.

Mas há momentos em que um crítico realmente arrisca na descoberta e defesa das coisas novas.

O mundo costuma ser duro com novos talentos e novas criações. O que é novo precisa de apoiantes.

Ontem à noite, passei por uma experiência nova, uma refeição extraordinária vinda duma fonte única e inesperada. Dizer que tanto a refeição como o seu criador alteraram a minha concepção sobre a arte da culinária é pouco. Eles abalaram todas as minhas crenças.

No passado, não escondi o meu desdém pelo famoso lema do Chef Gusteau: “Qualquer um pode cozinhar.” Mas agora compreendo perfeitamente o que ele quis dizer.

Nem todos podem ser grandes artistas, mas um grande artista pode surgir de qualquer lado. É difícil imaginar origens mais humildes do que as do gênio que agora cozinha no Gusteau’s, que é, na minha opinião de crítico, nada menos do que o melhor Chefe da França.

Regressarei ao Gusteau’s em breve, desejoso de mais. Foi uma grande noite. A mais feliz da minha vida. Mas a única coisa previsível da vida é o imprevisível.”

***

O final do filme não contarei, claro, mas recomendo que seja visto por quem gosta de cozinhar, por quem gosta de comer e por quem gosta de frequentar restaurantes. Ah, e também por quem é (ou foi) jornalista da área de gastronomia. Para esses, o filme é mandatório.

Renato Delmanto

 

O Yahoo não fez um negócio da China



Um acordo firmado no último dia 13 de novembro entre o Yahoo e dois jornalistas chineses dissidentes reacendeu uma interessante discussão sobre os valores e o comportamento das empresas do universo pontocom. O caso refere-se a Wang Xiaoning e Shi Tao , jornalistas que foram presos em 2005 pelo governo chinês por terem distribuído, via internet, informações proibidas pelo regime local. Até aí, tratava-se de mais um ato de exceção de um governo autoritário. O problema é que parte das “provas” contra eles foram fornecidas pela filial do Yahoo em Hong Kong. Um dos jornalistas, Shi Tao, foi condenado a 10 anos de prisão. Para piorar, os dissidentes alegam ter sido torturados no cárcere. A repercussão do caso na mídia fez com que as famílias dos condenados entrassem com uma ação nos EUA contra o Yahoo, co-responsabilizando a empresa pela prisão – e tortura – dos dissidentes. O acordo anunciado recentemente (cujos valores financeiros não foram divulgados) pôs fim à ação judicial, mas nem de longe deu uma trégua ao Yahoo.

Conforme o assunto atraía o interesse de entidades defensoras dos direitos humanos – e de deputados americanos –, foram aparecendo detalhes pouco edificantes da participação da empresa na história. As investigações paralelas trouxeram à tona as incongruências entre o discurso corporativo do Yahoo e a prática de sua filial em Hong Kong. Em 2006, o vice-presidente da empresa, Michael Callahan, afirmara aos deputados americanos, em audiência pública no Congresso, que o Yahoo não sabia os motivos pelos quais o governo chinês solicitara os dados dos usuários. Nos meses seguintes, descobriu-se que a empresa sabia, sim, o motivo: os dois eram suspeitos de terem difundido ilegalmente “informações secretas”, segundo as autoridades.

No início de novembro deste ano, o mesmo vice-presidente enviou carta aos parlamentares pedindo desculpas e dizendo que a informação correta sobre o pedido do governo chinês somente chegara até ele meses após seu depoimento no Congresso. Segundo um porta-voz do Yahoo, o problema foi causado pela tradução errada do documento das autoridades chinesas recebida por um advogado da empresa na China, em 2004. O advogado só obteve a tradução correta depois da audiência de 2006, segundo o porta-voz. Tratava-se, segundo ele, de um “mal entendido”.
“Que mal entendido, que nada”, rebateu o deputado democrata Tom Lantos. “Trata-se de um comportamento negligente indesculpável, na melhor das hipóteses, ou de uma postura deliberadamente enganosa, na pior”. Uma semana depois, o presidente do Yahoo, Jerry Yang, foi convocado a comparecer ao Congresso. Afirmou que a empresa estava disposta a colaborar com os deputados e que era “totalmente comprometida com a defesa dos direitos humanos”. O discurso não convenceu.

O acerto judicial com as famílias alimentou ainda mais o debate. O Yahoo e outros players globais no mundo digital estão sendo questionados sobre qual deve ser a responsabilidade de uma empresa que atue em outros países em relação aos valores, princípios e política de privacidade praticadas em seu país de origem – no caso, os Estados Unidos.

Em sua defesa no Congresso, o Yahoo justificou-se afirmando que uma empresa que atua em outro país deve respeitar as leis locais. No caso chinês, o jornalista Shi Tao foi preso por ter repassado a colegas de outros países o alerta recebido por e-mail do Partido Comunista, determinando que nenhum jornalista deveria cobrir as eventuais manifestações do 15º aniversário do massacre da Praça da Paz Celestial, em 2004. Para o governo chinês, o alerta tratava-se de “segredo de Estado”.


Na blogsfera
A prisão e condenação dos dois dissidentes foi amplamente noticiada. Passado o calor da história, a discussão migrou dos tradicionais sites noticiosos para a blogsfera – para desespero dos executivos do Yahoo. Pois os blogueiros começaram a questionar se, ao revelar às autoridades chinesas a identidade dos autores dos e-mails, a empresa de fato desconhecia que aqueles usuários seriam condenados com base numa lei contrária aos princípios da liberdade de expressão.

Políticas de confidencialidade de sites explicitam que, em casos como a pedofilia, a empresa permite-se revelar os dados do usuário às autoridades, para que sejam tomadas as medidas legais cabíveis. Mas, no caso chinês, a discussão é ética: para alguns blogueiros, o interesse maior do Yahoo foi garantir um espaço privilegiado no mercado de web chinês, um dos mais promissores do mundo. (Logo que entrou naquele país, o Yahoo aceitou adotar a censura prévia em seu mecanismo de busca.) Alicerçado no discurso de “respeito à legislação local”, isso significou não somente fazer vistas grossas aos abusos repressivos do governo local –– mas principalmente ser escandalosamente colaboracionista com os desmandos da polícia chinesa.
Pior para o Yahoo. Pois os discursos de seus executivos perante os deputados americanos escancararam uma postura eticamente duvidosa, no mínimo. Ou regionalizada, digamos: o que vale para os EUA não necessariamente vale para outros países menos democráticos. Ciente dos respingos que esse debate pode causar à percepção de sua marca, a empresa apressou-se em fechar o acordo com as famílias dos jornalistas presos.

No entanto, conforme o caso ganha espaço na blogsfera, mais argumentos pipocam contra a empresa. A Organização Mundial pelos Direitos Humanos acusou o Yahoo de ter se beneficiado financeiramente do fato de ter ajudado as autoridades chinesas nesse trabalho sujo. E a crítica resvalou também em outro gigante da Web. “Yahoo e Google têm ficado de joelhos perante o governo chinês e suas práticas de censura, desde que entraram no país, para garantir um espaço nobre no segundo maior mercado de internet do mundo”.

Phil Butler, um respeitado blogueiro (entenda-se como linkado no site do New York Times) argumenta que a sociedade não pode aceitar que grandes companhias só admitam seus erros quando pressionadas. Elas pedem desculpas como se isso resolvesse o problema, e compensam financeiramente a família de uma vítima que ficará 10 anos presa. Verdade é que as ações do Yahoo caíram cerca de 20% desde que o assunto voltou a ser notícia, no início de novembro. O custo financeiro de uma desvalorização dos papéis na bolsa é alto para uma empresa como o Yahoo, mas pode ser recuperado no curto ou médio prazo, dependendo dos humores do mercado de capitais.

Já o estrago causado na percepção da marca, junto ao público formador de opinião, pode ser muito mais difícil de ser revertido. Ou seja, esse não foi um negócio da China para o Yahoo.

Renato Delmanto

 
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Publicado por em 04/12/2007 em Uncategorized

 

Pão na chapa e gestão

Gestão e processos são palavras que, a cada vez que são usadas, tornam-se um pouco mais desgastadas. Mas quando nos deparamos no dia-a-dia com boas práticas de gestão e de processos, esses conceitos ganham nova vitalidade. Há uma padaria-lanchonete na região da Av. Paulista que chama a atenção. Não pelo ambiente, exatamente igual ao de tantos outros lugares.

Nem pela qualidade dos pães, doces e lanches que prepara – igualmente semelhante aos da concorrência. O que distingue a lanchonete do Chico Bacalhau é justamente o processo de trabalho. Ao entrar na lanchonete por volta das sete da manhã, naquele dia em que o rodízio paulistano nos obriga a madrugar no trabalho, chama a atenção o fato de, por trás do balcão, estarem dispostos pratos com pães de vários tipos – ciabatta, francês, coissant –, já devidamente cortados, alguns já com manteiga.

Da primeira vez estranhei, mas da segunda não resisti à curiosidade e perguntei ao funcionário o que significava aquilo. A resposta é simples: como há fregueses que vão diariamente tomar café da manhã ali, e alguns têm pressa, eles já adiantam o lanche preferido desses clientes, minutos antes deles chegarem. Quando o cliente prefere o lanche quente, basta que entre na lanchonete para que o pão pousa sobre a chapa quente. Isso é processo. E mais: isso é fidelização do cliente, atendimento personalizado.

O mais curioso é que isso acontece a um quarteirão da Paulista, talvez a avenida mais movimentada do país e da América Latina. O sonho de todo consumidor é ser identificado e reconhecido, ter respeitadas as suas vontades e preferências, ser tratado como um, não como uma massa.

Claro que isso é quase impossível em algumas indústrias de bens de consumo. Mas na área de serviços, como é o caso da lanchonete do Chico Bacalhau, isso faz toda a diferença. Ele não só preserva os antigos clientes como atrai novos, assim que descobrem esse diferencial. Os funcionários trabalham satisfeitos, demonstram felicidade e boa vontade no atendimento.

De fato, além do serviço, nada distingue a padaria-lanchonete do Chico Bacalhau das demais da região e da cidade de São Paulo. Na parede há um quadro com o símbolo da torcida da Portuguesa de Desportos – o Leão vestindo a camisa do time – (o apelido “bacalhau” vem de sua origem lusitana), uma televisão de 29 polegadas sobre uma geladeira de refrigerantes, que começa o dia sintonizada no Bom Dia São Paulo e depois sintoniza os canais pagos da Sky, máquina de café expresso, um caixa envidraçado que vende desde chocolates e cigarros até miniaturas de Fuscas e Ferraris, e mesas e cadeiras de aço empilhadas num canto do salão, que na happy hour ocupam parte da calçada.

A fórmula do sucesso da padaria-lanchonete incentivou Chico Bacalhau a se candidatar a deputado estadual em 2006. Chico teve 1,5 mil votos, mas precisava de cerca de 30 mil para eleger-se pelo PMDB paulista. Ele não se arrepende, pois diz ter gasto apenas R$ 4,5 mil na eleição, basicamente na produção de panfletos e camisetas.

Chico segue com seu projeto político, tentando a vereança paulistana em 2008, e depois novamente a Assembléia Legislativa em 2010. “Um dia eu vou conseguir”, diz Chico Bacalhau, que agora vai mudar para o Partido Verde. Se será bem-sucedido ou não em seus planos políticos, difícil saber. Mas ao menos com relação à satisfação de seus clientes, Chico Bacalhau já conseguiu muito mais do que a maioria de seus concorrentes.

Renato Delmanto

Publicado no site Empresa Brasil

 
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Publicado por em 05/09/2007 em Gestão

 

O direito à preservação da fonte

O partido português PSD propôs, em meados de junho, a elaboração de um novo Estatuto dos Jornalistas do país no qual a corrupção seja considerada crime que obrigue os jornalistas a revelar suas fontes. A proposta do partido amplia o projeto capitaneado pelo governo português, que prevê que “a revelação das fontes de informação (…) pode ser ordenada pelo tribunal quando tal seja necessário para a investigação (…) de casos graves de criminalidade organizada”.

A discussão é, no mínimo, polêmica. Desde o “Garganta Profunda”, de Watergate, o assunto gera debates acalorados. Se imaginarmos a realidade brasileira – na qual a indústria do grampo prolifera livremente e é uma das principais matérias-primas do jornalismo investigativo – a questão ganha outros contornos.

O off sempre ajudou jornalistas a fazer matérias que desbarataram esquemas envolvendo corruptos e corruptores. O que pode estar por trás da “grampolândia” na imprensa brasileira é a espetacularização da notícia. Que o índice de leitura vem caindo – e seguirá caindo, proporcionalmente em relação à população, nos próximos anos – é um fato. Que cada vez mais a população depende da TV – e no futuro, também da internet – para se informar é outra constatação. Disso advém a demanda por material comprobatório para ilustrar as reportagens. Nada como uma conversa gravada (mostrada na tevê com a legenda do respectivo diálogo), ou uma imagem feita por uma câmera escondida, para provar à população da era Big Brother que determinado político, empresário, ou mesmo médico, farmacêutico ou atendente de loja está fazendo algo contra a lei.

Fim do segredo de justiça

A discussão se o jornalista deve ou não revelar sua fonte é menor em relação ao debate de como se dão as relações entre jornalistas e fontes. A espionagem e a contra-espionagem empresarial são as maiores responsáveis por produzir material de apoio (ou “provas”) para as matérias. No caso, o interesse da fonte que passou a informação em off é comprometer o concorrente ou adversário político.

O jornalista, que muitas vezes recebe de mão beijada o material – dossiês, fitas, gravações, documentos etc. –, justifica a publicação como sendo de interesse público. Assim, o debate sobre como a imprensa deve lidar com esse conflito de interesses (de quem lhe passou a informação, obtida muitas vezes de forma ilícita) fica para um segundo plano – ou simplesmente não acontece.

O fim do sigilo de justiça em investigações, como o caso Gautama, pode ser um primeiro passo para minimizar a indústria do grampo. A partir do momento em que a magistrada Eliana Calmon determinou que não haveria mais segredo de justiça, os documentos começaram a aparecer oficialmente, as contradições dos depoentes foram reproduzidas nas matérias e a cobertura jornalística ganhou em qualidade e profundidade – embora os grampos continuassem a ser vazados, sabe-se lá por quem.

Meios pouco éticos

A sugestão é um tanto simplista, mas pode ser um começo. O passado de censura vivido pela imprensa brasileira durante o período militar faz com que jornalistas, em geral, sejam contrários a qualquer interferência judicial no fazer jornalístico. Jornalistas têm toda a razão em adotar esta postura. O Judiciário nem sempre demonstra isonomia em suas decisões – ou pior, quase sempre mostra desalinho entre as decisões liminares de determinados juízes e as decisões dos tribunais superiores, que acabam cassando aquelas liminares.

Embora a discussão sobre o grampo venha ganhando mais corpo na sociedade e na própria mídia – e o foco atual é definir-se formas de evitar o vazamento generalizado que se viu nas recentes investigações da Polícia Federal –, não se pode misturar com essa discussão a questão da fonte em off.

A atual Lei de Imprensa assegura ao jornalista o respeito ao sigilo quanto às fontes. Já o projeto da Nova Lei de Imprensa, aprovado há mais de 11 anos na Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara, não só mantém como explicita os direitos dos jornalistas de preservar suas fontes: “Nenhum autor de escrito ou notícia, ou veículo de comunicação, poderá ser coagido ou compelido a indicar o nome de seu informante ou fonte de suas informações, não podendo seu silêncio, na ação judicial a que responder, ser usado contra ele como presunção de culpa ou como agravante.”

Mas enquanto os especialistas debatem soluções tecnológicas e jurídicas para se identificar e coibir o vazamento de informações – seja por parte da Polícia Federal, seja por parte do Ministério Público, seja fruto da espionagem empresarial – caberia aos jornalistas refletir um pouco mais sobre suas relações com essas fontes. Refletir se eles estão realmente a serviço da sociedade, ou se estão, mesmo que involuntariamente, a serviço de agentes que usam de meios pouco éticos para enfrentar a concorrência.

Renato Delmanto

Publicado no Observatório da Imprensa

 
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Publicado por em 04/08/2007 em Uncategorized