RSS

Arquivo da categoria: Uncategorized

A charge da discórdia

 
A imprensa americana debateu recentemente os limites que separam a liberdade de expressão da prática do racismo. A razão foi uma charge publicada no dia 18 de fevereiro pelo tablóide New York Post, inspirada por um rumoroso caso ocorrido em Connecticut: um chimpanzé domesticado que teve um surto, atacou uma amiga de sua dona e acabou sendo abatido a tiros pela polícia. A notícia, em si, ganhou o costumeiro destaque nos espaços dedicados ao sensacionalismo – nos jornais, TV, internet, etc.

Entre os ingredientes que deram “noticiabilidade” ao fato pode-se listar alguns: o animal tinha 15 anos, pesava 74 kg e nunca tivera tido um surto; era treinado para usar o banheiro, sabia vestir a própria roupa e até era capaz de fazer o login no computador da dona; ele havia escapado uma vez em 2003, mas na ocasião ninguém foi ferido por ele até ser encontrado; segundo as primeiras informações, sua dona teria dado a ele Xanax na manhã do ataque (o que ela nega); no passado, o chimpanzé atuou como garoto-propaganda em comerciais da Coca-Cola e da grife Old Navy.

Talvez esse último argumento tenha dado o “tempero” especial para que a imprensa sensacionalista dedicasse tanta atenção ao fato. Talvez tenha sido também esta razão que tenha levado o cartunista Sean Delonas a mesclar a comoção gerada pelo assunto com o pacote econômico do presidente Obama. Foi aí que o jornal e o cartunista escorregaram. Num país que elegeu pela primeira vez em sua história um presidente negro, fazer piada envolvendo o primeiro pacote econômico do governo com um chimpanzé significa dar margem a todo o tipo de interpretações, por mais que não tenha havido qualquer outra conotação na publicação.

Tempos atrás, uma piada (de mau gosto, diga-se de passagem) sobre a performance de Daiane dos Santos na Olimpíada gerou semelhante revolta. Fazia referência aos tipos de bananas (ouro e prata) e à medalha olímpica (bronze). O fato de ser negra e de bananas serem o alimento predileto dos macacos gerou a interpretação racista da piada. Nesse caso brasileiro, como se trata de uma piada apócrifa, não cabe julgar (ou inferir) sobre as intenções do autor, já que se trata de um desconhecido.

No caso do jornal New York Post, não: há um editor responsável pelo diário e o próprio cartunista pode ser criminalmente responsabilizado por alguma “obra” que venha a ser considerada racista ou discriminatória.

Entre os que ficaram revoltados com a publicação da charge, está o cantor e compositor John Legend. Vencedor de cinco prêmios Grammy, ele escreveu em seu site uma carta aberta ao NY Post, em que se pergunta que motivos teriam levado o jornal a publicar tal charge. “Eu imagino que vocês devem ter achado graça em sugerir que alguém que é responsável por elaborar um Plano Econômico deva ter a mesma inteligência e o juízo de um violento chimpanzé surtado, e que deveria igualmente ser abatido pela polícia para proteger os cidadãos.”

John Legend, que foi descoberto ainda adolescente, quando cantava música gospel na igreja, já teve composições gravadas por cantoras como Alicia Keys e Janet Jackson e tocou na festa de posse de Barack Obama. O artista desafia o jornal a respeito das origens e da biografia do presidente: “Não ocorreu a vocês que essa sugestão poderia sugerir uma conexão entre o presidente Obama e o chimpanzé surtado?” Ele lembra, na carta aberta, que Obama recebeu algumas ameaças de morte desde que anunciou sua candidatura. E que, historicamente, os negros têm sido comparados aos macacos, “como forma de racismo ou de escárnio”. E pergunta: “Vocês pretendiam invocar esses temas repugnantes quando publicaram a charge?”

No dia seguinte à publicação da charge, o jornal retratou-se perante a sociedade, seus leitores e internautas (a página com a charge foi, naquela semana, uma das mais acessadas e enviadas pelos internautas a outras pessoas). Com o título “That Cartoon” (Aquela Charge), o texto dizia que a charge pretendia “zombar de um pacote de estímulo federal que parecia escrito de maneira inepta”. Dizia ainda que foi interpretada “como um retrato de Presidente Obama, como uma expressão velada de racismo”. O texto afirma que não houve de forma alguma essa intenção e mais: “a todos que se sentiram ofendidos, pedimos desculpas”.

O jornal, que foi fundado em 1801 e desde 1993 pertence ao magnata da imprensa Rupert Murdoch, diz ainda no seu editorial que o episódio foi explorado na mídia por pessoas que, no passado, tiveram “diferenças” com o Post – “e que viram nesse incidente uma oportunidade de revanche”. E completa: “A esses, não pediremos desculpas”.
Apesar da conotação ideológica que o jornal tentou dar ao episódio, é mais prudente limitarmo-nos a entendê-lo como uma série de reações exageradas a um ato de criação de um desenhista-humorista talentoso e insuspeito em relação ao racismo.
Vale lembrar que, em junho do ano passado, o mesmo Obama, ainda candidato, foi alvo de episódio semelhante, quando a revista New Yorker publicou na capa uma charge dele e da mulher, Michelle, vestidos como terroristas muçulmanos. A revista, fundada por Harold Hoss há exatos 84 anos produz um dos melhores exemplos de jornalismo de qualidade no mundo, também é insuspeita em relação a qualquer conotação racista. O autor da capa ilustrando Obama como terrorista é Barry Blitt, que batizou seu desenho de “A Política do Medo”.
Certa vez, Eugênio Bucci definiu, neste Observatório, o cartunista Paulo Caruso como “um dos mais sagazes cronistas da política brasileira (…) que escreve com desenhos em lugar de frases”. A mesma definição poderia ser aplicada a Barry Britt e a Sean Delonas.
Britt é autor de outras tantas capas da New Yorker, que mostram talento e independência ideológica ao retratar situações políticas. Em resposta às críticas feitas à sua charge, o artista disse à época que seu objetivo era mostrar que “os que chamam Obama de antipatriótico (por isso, representado como terrorista) são irracionais”. Segundo ele, a intenção foi mostrar o quanto ridícula é a cultura do medo que cercava a campanha de Obama.
Já o cartunista Sean Delonas é responsável pela charge da página 6 do NY Post há mais de 10 anos. Desenhista e cartunista premiado, é também autor do afresco do altar da nova Igreja St. Agnes, em Nova York, reconstruída em 1997 após ter sido destruída por um incêndio.

Verdade é que o New York Post não é a New Yorker, assim como o seu jornalismo está a anos-luz atrás do praticado pela revista semanal. Fato é também que uma foto de uma celebridade espancada pelo parceiro ocupará seguramente a capa do jornal, enquanto a revista continuará optando por publicar charges e desenhos em sua capa, sem título, como o faz há mais de 80 anos.

Mas daí a concluirmos que houve uma intenção de ser racista é outra história. Basta lembrar que um dos dirigentes do jornal, em seus primeiros anos de existência, ainda no século 19, quando se chamava The Evening Post, foi Oswald Garrison Villard. Seu avô William Lloyd Garrison foi um notório abolicionista. O próprio Oswald foi membro fundador da Associação Nacional para Integração dos Negros e da União Americana pelas Liberdades Civis. Claro que a Era Murdoch em nada se assemelha ao passado do Post. Mas mesmo um tablóide que vive de manchetes sensacionalistas sabe que tem uma reputação a zelar – e que atos explícitos de discriminação racial ou religiosa afugentam até mesmo os leitores ávidos por notícias sobre o Big Brother.

E isso, no entender do Sr. Murdoch, representa queda no faturamento. Nem que fosse por esse motivo, o New York Post não publicaria deliberadamente uma charge racista.

Renato Delmanto

 
Anúncios
 

O que é ser “do ramo” no jornalismo?

Comecei minha carreira de jornalista num tempo em que se dizia que alguém ou era do ramo ou não era. Àquela época, pouco mais de 20 anos atrás, ainda ouvia-se o barulho das pretinhas – pelo menos na redação de Veja em 1986. As pessoas com quem convivi e trabalhei ao longo dos anos acabaram por me convencer de que eu era “do ramo”. Até aí, nada demais, pois eu fazia apenas o que era minha obrigação: apurar corretamente as matérias, escrever com correção (tentando imprimir algum estilo ao texto) e editar com critério. Criatividade, se houvesse, era lucro. Pois fiz assim durante anos. Até que um dia, no começo do ano 2000, decidi mergulhar de cabeça após ouvir o canto da sereia internet.

Como muitos que se arriscaram nesse mar aparentemente calmo que acabou se mostrando revolto, engoli muita água, quase me afoguei, passei um breve período como náufrago numa ilha deserta, mas fui resgatado com vida. Isso me fez acreditar novamente que é possível explorar esse oceano chamado internet e encontrar tesouros escondidos. Apesar do risco de chocar-se com um iceberg ou um recife.

Mas não é sobre essa vida de marinheiro que quero refletir. Quero falar sobre o grande aprendizado que a internet proporciona. Não estou me referindo à “reinvenção” do jornalismo sob a ótica desta mídia online; nem tampouco às infinitas possibilidades de convergência de meios (tv, cinema, música, vídeo, dvd, mp3) ou de interatividade e conteúdo colaborativo que a plataforma web possibilita.

Quero falar das lições que o trabalho com web possibilita, na prática, aos jornalistas. Quando me recordo do diálogo de surdos que havia entre a redação e a área comercial dos jornais e revistas em que trabalhei, dou vivas à revolução patrocinada pela internet, provando que essa relação não precisa ser tão delicada. Em alguns casos, havia um monólogo: exemplo melhor é do famoso diretor de redação de revista semanal que recebia o diretor comercial na sua sala, continuava digitando em seu computador durante a “conversa” e sequer travava contato visual com o outro. E essas visitas não duravam, nunca, mais que 5 minutos!

Nas pontocom, jornalistas puderam aprender a ver o marketing e a publicidade como uma peça absolutamente necessária para a sobrevivência do negócio e interdependente do que se costuma chamar de “conteúdo”. Sorte de quem aprendeu a lição. Pois não apenas deixou de odiar os colegas do marketing como percebeu que, trabalhando juntos, a soma de experiências e de repertórios resulta em idéias e produtos muito mais criativos.

Quando encontro amigos que trabalham na old media, ainda ouço alguns queixumes sobre “o pessoal da publicidade” e suas incansáveis tentativas de interferir no editorial. Esse passo já foi dado na internet – ainda bem. Mas não sei dizer qual será o próximo passo na evolução do meio online.

Talvez seja colocar um pé atrás, para que se defina com clareza os limites éticos dessa integração. Pois o internauta (ou leitor, ou ouvinte, ou telespectador, enfim, consumidor de mídia) pode ser tudo, menos burro. E ele percebe quando se força a barra naquilo que está publicado ou naquilo que é veiculado. A resposta de como se dará esse “filtro ético” ainda não temos. Melhor deixar a pergunta (e a reflexão) no ar.

Depois de duas décadas de profissão, concluí que jornalista bom tem de ser um cara “do ramo”. Mas atenção: esse “ramo” é que mudou muito. Hoje em dia, alguém do ramo tem de produzir conteúdo, mas também entender de tecnologia, de navegabilidade, de design, de comércio eletrônico, do modelo do negócio, de marketing. E não tenho dúvidas de que, para se buscar o tal filtro ético que talvez ainda nos falte, o fato de o profissional ser “do ramo” ajuda. E ajuda muito.

 
Deixe um comentário

Publicado por em 14/10/2008 em Uncategorized

 

Definição de Bossa Nova

Definição cunhada pelo compositor Carlos Lyra a respeito dele próprio (e por conseguinte, dos demais representantes da Bossa Nova, que viviam na Zona Sul do Rio de Janeiro) durante entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura:
“Eu era socialmente burguês, politicamente proletário e esteticamente aristocrata.”
E essas três classes não geravam um conflito interno? – perguntou o apresentador Carlos Eduardo Lins da Silva.
“Não”, respondeu Lyra. “Digamos que elas tinham uma convivência pacífica”.

Vale lembrar que Lyra (e a maioria de seus pares de então) era estudante universitário de classe média alta da Zona Sul carioca, simpatizante ou participante de movimentos culturais de esquerda, como o Teatro de Arena, e apreciador das belas artes.

Melhor definição, impossível.

Renato Delmanto
 
Deixe um comentário

Publicado por em 31/03/2008 em Uncategorized

 

O Yahoo não fez um negócio da China



Um acordo firmado no último dia 13 de novembro entre o Yahoo e dois jornalistas chineses dissidentes reacendeu uma interessante discussão sobre os valores e o comportamento das empresas do universo pontocom. O caso refere-se a Wang Xiaoning e Shi Tao , jornalistas que foram presos em 2005 pelo governo chinês por terem distribuído, via internet, informações proibidas pelo regime local. Até aí, tratava-se de mais um ato de exceção de um governo autoritário. O problema é que parte das “provas” contra eles foram fornecidas pela filial do Yahoo em Hong Kong. Um dos jornalistas, Shi Tao, foi condenado a 10 anos de prisão. Para piorar, os dissidentes alegam ter sido torturados no cárcere. A repercussão do caso na mídia fez com que as famílias dos condenados entrassem com uma ação nos EUA contra o Yahoo, co-responsabilizando a empresa pela prisão – e tortura – dos dissidentes. O acordo anunciado recentemente (cujos valores financeiros não foram divulgados) pôs fim à ação judicial, mas nem de longe deu uma trégua ao Yahoo.

Conforme o assunto atraía o interesse de entidades defensoras dos direitos humanos – e de deputados americanos –, foram aparecendo detalhes pouco edificantes da participação da empresa na história. As investigações paralelas trouxeram à tona as incongruências entre o discurso corporativo do Yahoo e a prática de sua filial em Hong Kong. Em 2006, o vice-presidente da empresa, Michael Callahan, afirmara aos deputados americanos, em audiência pública no Congresso, que o Yahoo não sabia os motivos pelos quais o governo chinês solicitara os dados dos usuários. Nos meses seguintes, descobriu-se que a empresa sabia, sim, o motivo: os dois eram suspeitos de terem difundido ilegalmente “informações secretas”, segundo as autoridades.

No início de novembro deste ano, o mesmo vice-presidente enviou carta aos parlamentares pedindo desculpas e dizendo que a informação correta sobre o pedido do governo chinês somente chegara até ele meses após seu depoimento no Congresso. Segundo um porta-voz do Yahoo, o problema foi causado pela tradução errada do documento das autoridades chinesas recebida por um advogado da empresa na China, em 2004. O advogado só obteve a tradução correta depois da audiência de 2006, segundo o porta-voz. Tratava-se, segundo ele, de um “mal entendido”.
“Que mal entendido, que nada”, rebateu o deputado democrata Tom Lantos. “Trata-se de um comportamento negligente indesculpável, na melhor das hipóteses, ou de uma postura deliberadamente enganosa, na pior”. Uma semana depois, o presidente do Yahoo, Jerry Yang, foi convocado a comparecer ao Congresso. Afirmou que a empresa estava disposta a colaborar com os deputados e que era “totalmente comprometida com a defesa dos direitos humanos”. O discurso não convenceu.

O acerto judicial com as famílias alimentou ainda mais o debate. O Yahoo e outros players globais no mundo digital estão sendo questionados sobre qual deve ser a responsabilidade de uma empresa que atue em outros países em relação aos valores, princípios e política de privacidade praticadas em seu país de origem – no caso, os Estados Unidos.

Em sua defesa no Congresso, o Yahoo justificou-se afirmando que uma empresa que atua em outro país deve respeitar as leis locais. No caso chinês, o jornalista Shi Tao foi preso por ter repassado a colegas de outros países o alerta recebido por e-mail do Partido Comunista, determinando que nenhum jornalista deveria cobrir as eventuais manifestações do 15º aniversário do massacre da Praça da Paz Celestial, em 2004. Para o governo chinês, o alerta tratava-se de “segredo de Estado”.


Na blogsfera
A prisão e condenação dos dois dissidentes foi amplamente noticiada. Passado o calor da história, a discussão migrou dos tradicionais sites noticiosos para a blogsfera – para desespero dos executivos do Yahoo. Pois os blogueiros começaram a questionar se, ao revelar às autoridades chinesas a identidade dos autores dos e-mails, a empresa de fato desconhecia que aqueles usuários seriam condenados com base numa lei contrária aos princípios da liberdade de expressão.

Políticas de confidencialidade de sites explicitam que, em casos como a pedofilia, a empresa permite-se revelar os dados do usuário às autoridades, para que sejam tomadas as medidas legais cabíveis. Mas, no caso chinês, a discussão é ética: para alguns blogueiros, o interesse maior do Yahoo foi garantir um espaço privilegiado no mercado de web chinês, um dos mais promissores do mundo. (Logo que entrou naquele país, o Yahoo aceitou adotar a censura prévia em seu mecanismo de busca.) Alicerçado no discurso de “respeito à legislação local”, isso significou não somente fazer vistas grossas aos abusos repressivos do governo local –– mas principalmente ser escandalosamente colaboracionista com os desmandos da polícia chinesa.
Pior para o Yahoo. Pois os discursos de seus executivos perante os deputados americanos escancararam uma postura eticamente duvidosa, no mínimo. Ou regionalizada, digamos: o que vale para os EUA não necessariamente vale para outros países menos democráticos. Ciente dos respingos que esse debate pode causar à percepção de sua marca, a empresa apressou-se em fechar o acordo com as famílias dos jornalistas presos.

No entanto, conforme o caso ganha espaço na blogsfera, mais argumentos pipocam contra a empresa. A Organização Mundial pelos Direitos Humanos acusou o Yahoo de ter se beneficiado financeiramente do fato de ter ajudado as autoridades chinesas nesse trabalho sujo. E a crítica resvalou também em outro gigante da Web. “Yahoo e Google têm ficado de joelhos perante o governo chinês e suas práticas de censura, desde que entraram no país, para garantir um espaço nobre no segundo maior mercado de internet do mundo”.

Phil Butler, um respeitado blogueiro (entenda-se como linkado no site do New York Times) argumenta que a sociedade não pode aceitar que grandes companhias só admitam seus erros quando pressionadas. Elas pedem desculpas como se isso resolvesse o problema, e compensam financeiramente a família de uma vítima que ficará 10 anos presa. Verdade é que as ações do Yahoo caíram cerca de 20% desde que o assunto voltou a ser notícia, no início de novembro. O custo financeiro de uma desvalorização dos papéis na bolsa é alto para uma empresa como o Yahoo, mas pode ser recuperado no curto ou médio prazo, dependendo dos humores do mercado de capitais.

Já o estrago causado na percepção da marca, junto ao público formador de opinião, pode ser muito mais difícil de ser revertido. Ou seja, esse não foi um negócio da China para o Yahoo.

Renato Delmanto

 
1 comentário

Publicado por em 04/12/2007 em Uncategorized

 

O direito à preservação da fonte

O partido português PSD propôs, em meados de junho, a elaboração de um novo Estatuto dos Jornalistas do país no qual a corrupção seja considerada crime que obrigue os jornalistas a revelar suas fontes. A proposta do partido amplia o projeto capitaneado pelo governo português, que prevê que “a revelação das fontes de informação (…) pode ser ordenada pelo tribunal quando tal seja necessário para a investigação (…) de casos graves de criminalidade organizada”.

A discussão é, no mínimo, polêmica. Desde o “Garganta Profunda”, de Watergate, o assunto gera debates acalorados. Se imaginarmos a realidade brasileira – na qual a indústria do grampo prolifera livremente e é uma das principais matérias-primas do jornalismo investigativo – a questão ganha outros contornos.

O off sempre ajudou jornalistas a fazer matérias que desbarataram esquemas envolvendo corruptos e corruptores. O que pode estar por trás da “grampolândia” na imprensa brasileira é a espetacularização da notícia. Que o índice de leitura vem caindo – e seguirá caindo, proporcionalmente em relação à população, nos próximos anos – é um fato. Que cada vez mais a população depende da TV – e no futuro, também da internet – para se informar é outra constatação. Disso advém a demanda por material comprobatório para ilustrar as reportagens. Nada como uma conversa gravada (mostrada na tevê com a legenda do respectivo diálogo), ou uma imagem feita por uma câmera escondida, para provar à população da era Big Brother que determinado político, empresário, ou mesmo médico, farmacêutico ou atendente de loja está fazendo algo contra a lei.

Fim do segredo de justiça

A discussão se o jornalista deve ou não revelar sua fonte é menor em relação ao debate de como se dão as relações entre jornalistas e fontes. A espionagem e a contra-espionagem empresarial são as maiores responsáveis por produzir material de apoio (ou “provas”) para as matérias. No caso, o interesse da fonte que passou a informação em off é comprometer o concorrente ou adversário político.

O jornalista, que muitas vezes recebe de mão beijada o material – dossiês, fitas, gravações, documentos etc. –, justifica a publicação como sendo de interesse público. Assim, o debate sobre como a imprensa deve lidar com esse conflito de interesses (de quem lhe passou a informação, obtida muitas vezes de forma ilícita) fica para um segundo plano – ou simplesmente não acontece.

O fim do sigilo de justiça em investigações, como o caso Gautama, pode ser um primeiro passo para minimizar a indústria do grampo. A partir do momento em que a magistrada Eliana Calmon determinou que não haveria mais segredo de justiça, os documentos começaram a aparecer oficialmente, as contradições dos depoentes foram reproduzidas nas matérias e a cobertura jornalística ganhou em qualidade e profundidade – embora os grampos continuassem a ser vazados, sabe-se lá por quem.

Meios pouco éticos

A sugestão é um tanto simplista, mas pode ser um começo. O passado de censura vivido pela imprensa brasileira durante o período militar faz com que jornalistas, em geral, sejam contrários a qualquer interferência judicial no fazer jornalístico. Jornalistas têm toda a razão em adotar esta postura. O Judiciário nem sempre demonstra isonomia em suas decisões – ou pior, quase sempre mostra desalinho entre as decisões liminares de determinados juízes e as decisões dos tribunais superiores, que acabam cassando aquelas liminares.

Embora a discussão sobre o grampo venha ganhando mais corpo na sociedade e na própria mídia – e o foco atual é definir-se formas de evitar o vazamento generalizado que se viu nas recentes investigações da Polícia Federal –, não se pode misturar com essa discussão a questão da fonte em off.

A atual Lei de Imprensa assegura ao jornalista o respeito ao sigilo quanto às fontes. Já o projeto da Nova Lei de Imprensa, aprovado há mais de 11 anos na Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara, não só mantém como explicita os direitos dos jornalistas de preservar suas fontes: “Nenhum autor de escrito ou notícia, ou veículo de comunicação, poderá ser coagido ou compelido a indicar o nome de seu informante ou fonte de suas informações, não podendo seu silêncio, na ação judicial a que responder, ser usado contra ele como presunção de culpa ou como agravante.”

Mas enquanto os especialistas debatem soluções tecnológicas e jurídicas para se identificar e coibir o vazamento de informações – seja por parte da Polícia Federal, seja por parte do Ministério Público, seja fruto da espionagem empresarial – caberia aos jornalistas refletir um pouco mais sobre suas relações com essas fontes. Refletir se eles estão realmente a serviço da sociedade, ou se estão, mesmo que involuntariamente, a serviço de agentes que usam de meios pouco éticos para enfrentar a concorrência.

Renato Delmanto

Publicado no Observatório da Imprensa

 
Deixe um comentário

Publicado por em 04/08/2007 em Uncategorized

 

Democracia, ditadura, direita e esquerda

Não sou sociólogo, nem cientista político, por isso não vou me meter a fazer qualquer análise mais embasada sobre a campanha presidencial de 2006. Mas fato é que fica difícil para qualquer mortal entender que raio de conflito ideológico é esse entre PT e PSDB.

Digo isso porque faço parte de uma geração que nasceu e cresceu durante a ditadura, aprendeu com os pais a importância da democracia e do exercício do voto. Claro que, naquele tempo, era mais fácil de se entender isso. Esta charge, tirada do livro “Aos Trancos e Barrancos”, de Darcy Ribeiro, ilustra bem a diferença.

A diferença entre direita (os militares) e esquerda (a oposição civil e os recém-anistiados) era muito mais cristalina – e maniqueísta: “eles” eram do mal e nós, do bem. “Eles” eram corruptos, nós cidadãos honestos. “Eles” eram militares, nós civis.

Assim, ficava fácil saber de que lado deveríamos ficar, nós, pessoas de bem.

O que mudou depois da redemocratização do país? Hoje não existe mais o lado do mal, ao menos personificado pelos militares e pelos políticos de “direita”. A eleição polarizou-se entre o partido que nasceu do movimento operário, dos radicais oriundos da clandestinidade e dos intelectuais de esquerda e o partido que nasceu da reunião de ilustres representantes da oposição civil e intelectualizada ao regime militar.

De um lado, um time que reunia no seu nascedouro do líder sindical Lula, um ícone nacional, ao ex-guerrilheiro Fernando Gabeira, passando pelo jurista Dalmo Dallari; de outro, um partido nascido da costela do MDB (a oposição consentida pelos militares), que reunia desde o governador Franco Montoro e o prefeito Mário Covas, passando pelo ex-líder estudantil José Serra.

Depois da eleição de Fernando Henrique Cardoso – e da aliança de seu governo com algumas das forças mais reacionárias do país, personificadas por ACM – a oposição passou a ser representada pela figura de petistas combativos, sempre alerta e prontos a denunciar quaisquer atos de corrupção, abuso de poder ou negociata envolvendo a coisa pública, principalmente no que se refere às privatizações dos serviços públicos.

A partir disso, a oposição petista passou a satanizar o governo FHC, a ponto de conseguir uma vitória retumbante em 2002, vitória de um partido de esquerda, representante legítimo das camadas mais populares, comandado por um ex-operário.

A nova oposição, satanizada e desprestigiada enquanto ex-governo, teve dificuldades em encontrar seu mote de crítica, diante da unanimidade que se instalou, junto à população, em relação ao governo petista, nos seus primeiros meses de Planalto. Só veio encontrá-lo quando o próprio PT, no exercício do poder, demonstrou que era tão ou mais corruptível que os governos anteriores.

Isso fez com que se criasse um nó na cabeça das pessoas.

O partido que era guardião da ética na política institucionalizou o descambo no trato da coisa pública; os líderes de esquerda, que foram perseguidos, calados e até exilados pela ditadura, demonstraram um gosto pelo autoritarismo, uma repulsa voraz às críticas e uma tendência incontida a coibir a liberdade de imprensa; o partido que tanto denunciou as maracutaias e negociatas envolvendo a máquina estatal foi o que mais aparelhou órgãos públicos, sempre com quadros do partido, mas quase nunca com a capacitação profissional e com a lisura moral adequadas a esses cargos.

Na cabeça do eleitor sobrou a confusão. Os papéis foram trocados, e não ficou muito claro para o cidadão comum se a oposição de hoje (o PSDB) era mesmo tão cruel e malvada – ainda para mantermos a linha de raciocínio maniqueísta – quanto a propaganda petista tentou mostrar em 2006. E o pobre eleitor consegue, muito menos, entender o que moveu o partido no qual depositara sua esperança em 2002 ao descambo de maneira tão acintosa, e ainda bancar o santo inocente no horário eleitoral gratuito.

Como disse no início, não sou cientista político, nem sociolólogo, mas vejo nessa troca ou confusão de papéis o risco da tentação de se buscar uma solução populista, já que o debate ideológico e político deu lugar à discussão do assistencialismo, da inclusão, da distribuição de renda, das políticas sociais e só.

Não importa ao eleitor que a contrapartida dessas políticas sociais seja fazer vistas grossas às questões éticas, seja entender como natural os desmandos que no passado nos indignaram. A incompetência da oposição em levantar o debate aprofundado – provavelmente também por despreparo, medo de cobranças pelo período em que foi governo ou receio de não ter condições de enfrentar uma discussão de idéias de fato transformadoras – também chama a atenção.

Um comentarista político, dia desses, definiu o PT e o PSDB atuais como primos, com pequenas diferenças de fato entre eles. Mas que, por diversas razões, se julgam inimigos mortais, e fazem dessa rivalidade sua razão de existir. Mal comparando, é como se fossem israelenses e árabes.

O problema é que, nessa disputa cega, os reais interesses do Brasil e do povo sejam esquecidos. A necessidade de mudanças estruturais e de fato transformadoras da sociedade acaba substituída por um ilusionismo de números e feitos pseudo relevantes. De ambas as partes. E pior, com o aval de intelectuais importantes, principalmente do lado petista, que seguem com o discurso da diferença ideológica histórica, do fato de o partido ser “de esquerda”. Mas, de novo, nenhum deles consegue explicar o apoio recebido de figuras como Delfim Netto e Paulo Maluf.

Para encerrar, publico outra charge tirada do livro “Aos Trancos e Barrancos”, que ilustra bem o nível de debate que estamos tendo atualmente. (Em tempo: a charge é de 1980.)

 
Deixe um comentário

Publicado por em 24/10/2006 em Uncategorized

 

O sal da terra

Diante de tanta falta de ética que vemos na política e no poder, vale uma reflexão sobre este trecho de um sermão de Padre Antônio Vieira, de 1654. Basta trocar pregadores por políticos e ouvintes por eleitores:

“Diz Cristo, falando aos pregadores, vós sois o sal da terra, porque quer que façam na terra, o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção, mas quando a terra se vê tão corrupta como a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa dessa corrupção?

Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra não se deixa salgar.

Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra não se deixa salgar, e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não querem receber.

Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma coisa e fazem outra; ou porque a terra não se deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem.

Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si, e não a Cristo; ou porque a terra não se deixa salgar, e os ouvintes em vez de servir a Cristo, servem os seus apetites.”

(Sermão de Santo Antônio, proferido em São Luís do Maranhão, em 1654, também conhecido como sermão aos peixes, publicado no Tomo VII dos Sermões do Padre Antônio Vieira).

 
Deixe um comentário

Publicado por em 22/09/2006 em Uncategorized