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Vida inteligente no cinema

Dos principais concorrentes ao Oscar deste ano, só assisti a ‘O Artista’. É um daqueles filmes que chama a atenção pelo inusitado do seu conceito. O filme relata a transição do cinema mudo para o cinema falado, por meio da história não muito original de um astro da era sem som que se recusa a aceitar a evolução audiovisual. Seria uma trama até banal, não fosse a maneira como a história é narrada – e principalmente a qualidade da interpretação do ator Jean Dujardin.

Difícil imaginar que, no milionário mundo do cinema, saísse do papel uma proposta de filme sem diálogos, rodado em preto-e-branco, totalmente inspirado na linguagem do cinema mudo. É uma prova de que ainda existe ousadia no cinema. Verdade que se trata de uma produção francesa – ou seja, Hollywood prefere continuar gastando milhões em seus efeitos especiais 3D, considerando o cinema apenas como entretenimento.

Nada contra Hugo Cabret ou Harry Potter. O primeiro nem vi (embora tenha muita vontade de assistir), e o segundo vi todos e até gosto (embora não tenha lido nenhum dos livros). A principal lição que se pode tirar de ‘O Artista’ é que a obra autoral ainda tem espaço na telona. Conforme a tecnologia evolui e a indústria do cinema se moderniza, a intuição dos criadores e a espontaneidade dos atores parece se perder em proporção inversa. Cada vez mais se vê nos “making ofs” dos filmes atores contracenando com ninguém ou com bonecos que serão substituídos na montagem final por personagens virtuais.

A tecnologia é importante para o desenvolvimento da indústria cinematográfica, mas é muito prazeroso ver um filme que se ancora exclusivamente no talento dos atores. Woody Allen, por diversas vezes, conseguiu impor seu estilo e suas ideias, e rompeu a barreira “criativa” no mundo pasteurizado de Hollywood. ‘Zelig’, um filme dos anos 80 meio esquecido na obra de Allen, possui algumas características semelhantes a ‘O Artista’. Naquela história, o personagem-título era uma espécie de homem-camaleão que se transformava fisicamente e ficava parecido com as pessoas com quem convivia durante algum período de tempo.

Esteticamente, Allen reproduz na tela do cinema o estilo dos cinejornais dos anos 30, e a narrativa “documenta” as cenas em que o personagem aparece ao lado de personagens ilustres da época (de Hearst a Hitler), sempre “paramentado” como cada um deles.  

Na festa do Oscar de 1984, o filme de Allen concorreu apenas a duas estatuetas “técnicas” – Fotografia e Figurino. Perdeu as duas para o lindo ‘Fanny & Alexander’, de Bergman. Com justiça, diga-se. A originalidade criativa de Allen foi  solenemente ignorada pela Academia. 

Embora o Oscar deste ano tenha reconhecido ‘O Artista’ em 10 categorias, incluindo algumas das principais categorias “artísticas”, como filme, diretor, ator, roteiro original e atriz coadjuvante, difícil crer que leve a estatueta em mais de uma delas. Nas demais, consideradas técnicas (fotografia, direção de arte, figurino, montagem e trilha sonora) é provável que leve algum, mas isso nem de longe reconhece a originalidade demonstrada pelo diretor e roteirista Michel Hazanavicius.

‘O Artista’ é um experimento estético e criativo. Pena que tão poucas vezes os cinemas – ou a TV por assinatura – nos ofereçam opções como esta. Pena que a indústria cinematográfica de Hollywood seja cada vez menos receptiva a esse tipo de inovação artística. A zona de conforto dos grandes estúdios americanos está nas superproduções milionárias, nos efeitos especiais, nos grandes astros. Não em uma película em preto-e-branco, numa história contada de forma precisa e nos mínimos detalhes, sem diálogos, com atores desconhecidos.

Produções como ‘O Artista’ provam que ainda há vida inteligente no cinema. Mesmo que seja fora de Hollywood.

Por Renato Delmanto

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Publicado por em 22/02/2012 em Cinema

 

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Que ‘crítica’ é essa?

Há um bom tempo não vou ao cinema. Por uma conjunção de fatores: preguiça, desinteresse, comodismo (a tv a cabo e o dvd dão mais conforto). Eu poderia até culpar minhas filhas pequenas, que me requisitam em casa, mas seria uma enorme injustiça com elas. Mesmo assim (e isso são ossos do ofício), pergunte-me sobre qualquer filme em cartaz que saberei responder.

Ou melhor, no passado eu saberia. Hoje tenho pouco mais que uma vaga idéia. Sinto saudades do tempo em que comecei no jornalismo, tempo em que ler e “fechar” uma crítica de cinema era um momento de aprendizado e prazer. Tempo em que você precisava aprimorar seu conhecimento antes de perpetrar uma crítica.

Não tive a sorte de trabalhar ou conviver em redações com críticos do naipe de um Décio de Almeida Prado ou um Sábato Magaldi. Mas lembro-me especialmente de alguns críticos que eram verdadeiros mestres na arte de escrever. Um deles era o saudoso Edmar Pereira, que escrevia com tal paixão que a gente ficava com vontade de assistir ao filme mesmo que fosse ruim. Poucos coleguinhas, hoje, são tão hábeis no trato das idéias e palavras quanto ele era.

Parece que esse tempo se foi. Hoje, quase não se consegue mais ler uma crítica e saber simplesmente se o filme vale o ingresso ou não. Como editor, reclamo da dificuldade que é dar título a essas críticas – reparem como os títulos das críticas são cada vez mais focados nos detalhes, não na essência da obra. Como leitor, reclamo da falta de sensibilidade ou preparo dos autores dos textos.

Não que todo filme (ou peça teatral ou show) deva ser tratado como grande obra de arte. Há muitos que de fato são mero entretenimento. Mas isso não significa que o crítico deva por isso limitar-se a elencar dados. Hoje em dia, ao ler uma crítica, você fica sabendo quanto foi gasto na produção e em publicidade; quantos milhões faturados nos EUA; que efeitos especiais foram usados, etc., etc. Fica-se sabendo tudo, menos se o filme é bom ou ruim.

Muito disso deve-se aos press releases, que já vêm com essas informações, ou à facilidade da Internet – dois ulititários que podem se tornar nefastas influências a coleguinhas menos brilhantes. Tudo bem, é importante para o leitor receber informações como essas, mas é mais importante ter a referência básica se o filme merece ou não ser visto. É isso que o leitor espera da crítica.

Nossa imprensa atual trocou a argumentação pelas estrelinhas – de uma a cinco, indicando uma obra de fraca a ótima. Será que isso basta? As estrelinhas são desprovidas de qualquer argumento. E quando o leitor não concorda com a opinião do crítico, como fica?

Voltando ao saudoso Edmar Pereira, ele nunca recorreu às estrelinhas, preferia a argumentação. Lembro-me de quando escreveu que o filme ‘Robocop’ era uma das obras de ficção mais revolucionárias da década de 80. Debati com ele, antes de “descer” a matéria, que revolucionário era ‘Blade Runner’. Edmar rebateu que ‘Blade Runner’ era cult, enquanto ‘Robocop’, não: tinha feito sucesso de público, dosava bem elementos da ficção, mesmo que absurdos (cérebro do policial morto é implantado num robô), violência e crítica ao status quo (quando o robô descobre que até seus criadores são corruptos). Colocou isso no texto, acabou me convencendo e, acredito, convenceu o leitor também.

Não quero dizer aqui que a crítica (em geral e a cinematográfica em particular) tenha acabado. Há alguns lampejos de talento cada vez mais esparsos nas edições dos jornais diários.

Seria fácil culpar os cursos de jornalismo, que não dão a formação básica para um jornalista desenvolver carreira na área cultural. Mas não é culpa das faculdades – elas têm culpa, sim, de dar diploma a coleguinhas que não dominam minimamente a língua portuguesa (mas isso é outra história). Mas as escolas não têm culpa da falta de berço cultural dos alunos (como professor, é triste ter de concordar com isso).

Culpa é dos próprios jornalistas recém-formados, que dão a impressão de nem perceber que o mundo está passando diante deles; culpa é dos editores, que jogam um garoto ou garota de 20 anos na cova dos leões e os denominam “críticos”; culpa é das empresas, que endossam a troca de gente experiente por jovens em funções-chave.

Se o foca for medianamente esperto, consegue enganar seus chefes e colegas – mas não por muito tempo. Chega um dia em que encontra um editor com melhor formação, que vai descobrir o engodo, vai perceber que ele não conhece o assunto tanto assim… Às vezes, tarde demais, quando já foi criado o monstro. (É claro que o editor pode mandá-lo às favas, mas o nome dele já está “feito” no mercado, e vai continuar enganando em outra freguesia…)

Acima de tudo, falta humildade a esses jovens críticos e, principalmente, aos aspirantes a crítico – que parecem só absorver os vícios e os chavões, quase nunca a inventividade, dos ditos veteranos. Essa humildade até o mais sábio, o mais conhecedor jornalista tem. E por que o pirralho não pode ter? Falta a ele também, muitas vezes, mais que maturidade e bom senso, honestidade.

Meu primeiro editor, na Veja, Mario Sergio Conti, era uma pessoa de difícil trato – ao menos com os focas como eu (e olha que os focas daquele tempo eram melhores que os de hoje). Criticávamos seu jeito durão, seu mau humor, sua rabugice. Mas um texto dele em especial guardei na memória. A resenha (na Veja evitava-se, na época, o termo crítica) de ‘Ran’, de Kurosawa. Era um texto tão brilhante quanto o próprio longa do gênio japonês. Dali em diante, percebi por que eu era subordinado e principalmente por que deveria me subordinar ao Mario Sergio: em respeito ao seu talento e à sua capacidade.

Graças a experiências como esta e a colegas como Edmar Pereira aprendi a fazer o meu trabalho, a escrever e colocar minhas idéias no papel e a editar pensando sempre no leitor. Também graças a isso sofro com textos que não dizem nada.

Talvez por isso também não tenha ido muito ao cinema ultimamente…