RSS

Vida inteligente no cinema

22 fev

Dos principais concorrentes ao Oscar deste ano, só assisti a ‘O Artista’. É um daqueles filmes que chama a atenção pelo inusitado do seu conceito. O filme relata a transição do cinema mudo para o cinema falado, por meio da história não muito original de um astro da era sem som que se recusa a aceitar a evolução audiovisual. Seria uma trama até banal, não fosse a maneira como a história é narrada – e principalmente a qualidade da interpretação do ator Jean Dujardin.

Difícil imaginar que, no milionário mundo do cinema, saísse do papel uma proposta de filme sem diálogos, rodado em preto-e-branco, totalmente inspirado na linguagem do cinema mudo. É uma prova de que ainda existe ousadia no cinema. Verdade que se trata de uma produção francesa – ou seja, Hollywood prefere continuar gastando milhões em seus efeitos especiais 3D, considerando o cinema apenas como entretenimento.

Nada contra Hugo Cabret ou Harry Potter. O primeiro nem vi (embora tenha muita vontade de assistir), e o segundo vi todos e até gosto (embora não tenha lido nenhum dos livros). A principal lição que se pode tirar de ‘O Artista’ é que a obra autoral ainda tem espaço na telona. Conforme a tecnologia evolui e a indústria do cinema se moderniza, a intuição dos criadores e a espontaneidade dos atores parece se perder em proporção inversa. Cada vez mais se vê nos “making ofs” dos filmes atores contracenando com ninguém ou com bonecos que serão substituídos na montagem final por personagens virtuais.

A tecnologia é importante para o desenvolvimento da indústria cinematográfica, mas é muito prazeroso ver um filme que se ancora exclusivamente no talento dos atores. Woody Allen, por diversas vezes, conseguiu impor seu estilo e suas ideias, e rompeu a barreira “criativa” no mundo pasteurizado de Hollywood. ‘Zelig’, um filme dos anos 80 meio esquecido na obra de Allen, possui algumas características semelhantes a ‘O Artista’. Naquela história, o personagem-título era uma espécie de homem-camaleão que se transformava fisicamente e ficava parecido com as pessoas com quem convivia durante algum período de tempo.

Esteticamente, Allen reproduz na tela do cinema o estilo dos cinejornais dos anos 30, e a narrativa “documenta” as cenas em que o personagem aparece ao lado de personagens ilustres da época (de Hearst a Hitler), sempre “paramentado” como cada um deles.  

Na festa do Oscar de 1984, o filme de Allen concorreu apenas a duas estatuetas “técnicas” – Fotografia e Figurino. Perdeu as duas para o lindo ‘Fanny & Alexander’, de Bergman. Com justiça, diga-se. A originalidade criativa de Allen foi  solenemente ignorada pela Academia. 

Embora o Oscar deste ano tenha reconhecido ‘O Artista’ em 10 categorias, incluindo algumas das principais categorias “artísticas”, como filme, diretor, ator, roteiro original e atriz coadjuvante, difícil crer que leve a estatueta em mais de uma delas. Nas demais, consideradas técnicas (fotografia, direção de arte, figurino, montagem e trilha sonora) é provável que leve algum, mas isso nem de longe reconhece a originalidade demonstrada pelo diretor e roteirista Michel Hazanavicius.

‘O Artista’ é um experimento estético e criativo. Pena que tão poucas vezes os cinemas – ou a TV por assinatura – nos ofereçam opções como esta. Pena que a indústria cinematográfica de Hollywood seja cada vez menos receptiva a esse tipo de inovação artística. A zona de conforto dos grandes estúdios americanos está nas superproduções milionárias, nos efeitos especiais, nos grandes astros. Não em uma película em preto-e-branco, numa história contada de forma precisa e nos mínimos detalhes, sem diálogos, com atores desconhecidos.

Produções como ‘O Artista’ provam que ainda há vida inteligente no cinema. Mesmo que seja fora de Hollywood.

Por Renato Delmanto

Anúncios
 
1 comentário

Publicado por em 22/02/2012 em Cinema

 

Tags:

Uma resposta para “Vida inteligente no cinema

  1. Renato Delmanto

    27/02/2012 at 9:30

    Comentário pós-Oscar: Surpreendente que a Academia tenha dados os principais prêmios a O Artista. Sinal de bons ventos criativos também em Hollywood.
    Renato Delmanto

     

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: