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Arquivo mensal: fevereiro 2012

Vida inteligente no cinema

Dos principais concorrentes ao Oscar deste ano, só assisti a ‘O Artista’. É um daqueles filmes que chama a atenção pelo inusitado do seu conceito. O filme relata a transição do cinema mudo para o cinema falado, por meio da história não muito original de um astro da era sem som que se recusa a aceitar a evolução audiovisual. Seria uma trama até banal, não fosse a maneira como a história é narrada – e principalmente a qualidade da interpretação do ator Jean Dujardin.

Difícil imaginar que, no milionário mundo do cinema, saísse do papel uma proposta de filme sem diálogos, rodado em preto-e-branco, totalmente inspirado na linguagem do cinema mudo. É uma prova de que ainda existe ousadia no cinema. Verdade que se trata de uma produção francesa – ou seja, Hollywood prefere continuar gastando milhões em seus efeitos especiais 3D, considerando o cinema apenas como entretenimento.

Nada contra Hugo Cabret ou Harry Potter. O primeiro nem vi (embora tenha muita vontade de assistir), e o segundo vi todos e até gosto (embora não tenha lido nenhum dos livros). A principal lição que se pode tirar de ‘O Artista’ é que a obra autoral ainda tem espaço na telona. Conforme a tecnologia evolui e a indústria do cinema se moderniza, a intuição dos criadores e a espontaneidade dos atores parece se perder em proporção inversa. Cada vez mais se vê nos “making ofs” dos filmes atores contracenando com ninguém ou com bonecos que serão substituídos na montagem final por personagens virtuais.

A tecnologia é importante para o desenvolvimento da indústria cinematográfica, mas é muito prazeroso ver um filme que se ancora exclusivamente no talento dos atores. Woody Allen, por diversas vezes, conseguiu impor seu estilo e suas ideias, e rompeu a barreira “criativa” no mundo pasteurizado de Hollywood. ‘Zelig’, um filme dos anos 80 meio esquecido na obra de Allen, possui algumas características semelhantes a ‘O Artista’. Naquela história, o personagem-título era uma espécie de homem-camaleão que se transformava fisicamente e ficava parecido com as pessoas com quem convivia durante algum período de tempo.

Esteticamente, Allen reproduz na tela do cinema o estilo dos cinejornais dos anos 30, e a narrativa “documenta” as cenas em que o personagem aparece ao lado de personagens ilustres da época (de Hearst a Hitler), sempre “paramentado” como cada um deles.  

Na festa do Oscar de 1984, o filme de Allen concorreu apenas a duas estatuetas “técnicas” – Fotografia e Figurino. Perdeu as duas para o lindo ‘Fanny & Alexander’, de Bergman. Com justiça, diga-se. A originalidade criativa de Allen foi  solenemente ignorada pela Academia. 

Embora o Oscar deste ano tenha reconhecido ‘O Artista’ em 10 categorias, incluindo algumas das principais categorias “artísticas”, como filme, diretor, ator, roteiro original e atriz coadjuvante, difícil crer que leve a estatueta em mais de uma delas. Nas demais, consideradas técnicas (fotografia, direção de arte, figurino, montagem e trilha sonora) é provável que leve algum, mas isso nem de longe reconhece a originalidade demonstrada pelo diretor e roteirista Michel Hazanavicius.

‘O Artista’ é um experimento estético e criativo. Pena que tão poucas vezes os cinemas – ou a TV por assinatura – nos ofereçam opções como esta. Pena que a indústria cinematográfica de Hollywood seja cada vez menos receptiva a esse tipo de inovação artística. A zona de conforto dos grandes estúdios americanos está nas superproduções milionárias, nos efeitos especiais, nos grandes astros. Não em uma película em preto-e-branco, numa história contada de forma precisa e nos mínimos detalhes, sem diálogos, com atores desconhecidos.

Produções como ‘O Artista’ provam que ainda há vida inteligente no cinema. Mesmo que seja fora de Hollywood.

Por Renato Delmanto

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Publicado por em 22/02/2012 em Cinema

 

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Transparência é fundamental

Quais as lições que se pode tirar quando uma empresa não conta toda a verdade sobre determinado assunto? Casos recentes nos setores de petróleo, bens de consumo e varejo são emblemáticos. Merecem ser analisados e suscitam reflexões sobre o trabalho de comunicação corporativa. Muitas vezes, a “culpa” por esses episódios é delegada à área de comunicação. Mas não: a culpa é de toda a companhia, que optou pela falta de transparência no seu relacionamento com a sociedade – e sofreu as consequências por ter feito essa opção.

A sociedade vem se transformando de forma incrivelmente rápida nos últimos anos, o que exige uma nova postura e uma quebra de paradigmas por parte das empresas. No passado, eram poucos os “atores” que contracenavam com a empresa no seu ambiente de negócio, em sua maioria restritos à cadeia de produção e com estruturas hierárquicas bastante similares. As regras de atuação no mercado eram estáveis e conhecidas.

Como bem definiu em palestra recente o executivo da área sustentabilidade da Fibria, Carlos Alberto Roxo, essas regras hoje são mutantes, as empresas contracenam com inúmeros atores, que estão inseridos em uma sociedade conectada em rede. Diz ainda que esses atores possuem estruturas totalmente diferenciadas, que exigem das empresas “tradicionais” compromissos e respostas às novas demandas sociais e ambientais, demandas de repercussão global.

A maneira mais eficaz de responder a essas novas demandas e desafios impostos pela sociedade é agir com transparência. Aqui se ressalta o papel do comunicador. É ele o principal guardião e difusor de uma cultura de transparência dentro das organizações. Pois a transparência da comunicação gera credibilidade e reputação, e esses são os maiores patrimônios que um profissional de comunicação corporativa pode ter.

Junto ao público interno, o comunicador deve ser visto como um “advisor”, um especialista nos aspectos ligados à comunicação (entendida aqui no seu sentido mais amplo). Ele deve ser capaz de dar consultoria de alto nível, apoiar de forma eficaz e rápida a tomada de decisão, contribuir para agregar valor à companhia por meio de uma visão estratégica do negócio e zelar pelos aspectos ligados à sustentabilidade.

Perante o público externo, notadamente os formadores de opinião, o profissional de comunicação corporativa deve ser visto e percebido como ético e confiável, como alguém que prioriza a informação de qualidade e que nunca atua de forma dissimulada. A credibilidade do responsável pela comunicação de uma empresa junto a ex-colegas nas redações contribui para a reputação da própria companhia. De certa forma, ele “empresta” o seu prestígio pessoal à organização para a qual trabalha.

Isso porque credibilidade e reputação não são como um ativo que se pode “comprar” ou “conquistar” quando se deseja. É uma espécie de “poupança”, um patrimônio que se vai acumulando ao longo do tempo, aos poucos.

Valor inegociável

O profissional de comunicação deve estar ciente de que ninguém gosta de ser enganado, nem tampouco de ser informado apenas parcialmente sobre o que está de fato ocorrendo. Para o público interno, as conseqüências de uma comunicação pela metade podem ser frustrantes. O funcionário que descobrir a “verdade” por qualquer meio que seja (e perceber que esta verdade é distinta da qual imaginava), verá rompida a relação de confiança com seu empregador – relação essencial para seu engajamento e para a consolidação da cultura organizacional.

No relacionamento com os públicos externos formadores de opinião, o resultado de uma comunicação propositalmente parcial, tendenciosa ou camuflada pode ser desastroso. Esses públicos, notadamente a imprensa, entendem perfeitamente que determinadas informações não podem ser divulgadas – por conta de limitações legais, por exigência dos órgãos reguladores ou por razões estratégicas do próprio negócio. O problema é que existe uma barreira ética entre a postura de não estar autorizado a comentar determinado assunto e a decisão deliberada de sonegar, mentir ou manipular informações.

Determinadas companhias podem até considerar tênue essa linha que separa os dois comportamentos. A questão é que a ética é um valor inegociável.

No caso do profissional de comunicação, a firmeza de propósitos e a ética devem vir em primeiro lugar na sua escala de valores. Sua reputação e credibilidade pessoais dependem da confiança conquistada ao longo de sua vida e de sua carreira perante todos os seus interlocutores.

A convivência desse profissional com uma empresa pouco ética pode macular sua própria reputação, pode contaminar sua credibilidade no mercado. Por isso o profissional deve vincular sua “marca” pessoal a uma boa marca empresarial – a uma companhia que tenha valores alinhados aos seus e uma postura eticamente irretocável. Afinal, transparência e ética andam de mãos dadas.

Claro que defender uma política de transparência na empresa pode ser uma missão nada fácil para o comunicador. Em muitos casos, ela implica em uma mudança cultural, que considere a prestação de contas à sociedade como algo mandatório para o desenvolvimento dos negócios. É um dos principais desafios do comunicador.

Carlos Alberto Roxo define a sustentabilidade não como um alvo a ser atingido, mas como “uma estrada com um final que se desloca continuamente”. O importante, diz ele, é a empresa não se desviar desse caminho. 

Temas sensíveis

Agir com transparência significa abordar qualquer assunto, tratar dos chamados “temas sensíveis”, encarar todos os problemas. Significa assumir no discurso institucional que os problemas “existem”.

Muitas vezes, nos “media trainings” e preparações de porta-vozes para entrevistas, nós, especialistas em comunicação, recomendamos que os executivos evitem frases do tipo “o problema é que…”, ou “quando temos esse tipo de problema…”

Como se, numa espécie de exercício neurolinguístico dos porta-vozes, esse problema deixasse de existir simplesmente ao naõs er verbalizado. Eventualmente essa postura pode até dar bons resultados na mídia. Mas será correto fingir que o problema existe?

Melhor optar pela transparência. Sempre. A sociedade agradece.