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Setembro sem Saul Galvão

09 set

Saul em Paris, por Osvaldo Pavanelli
O dia 9 de setembro de 2009 é uma daquelas datas que, por sua composição cabalística (09/09/09), só voltará a acontecer daqui a mil anos. Mas para todos aqueles que conheceram de perto Saul Galvão é uma data para se lamentar. O melhor crítico de restaurantes que conhecemos nos deixou justamente nesta data peculiar, em sua cidade natal, Jaú.

Saul era humilde, espirituoso, às vezes sarcástico, à primeira vista mal-humorado, mas um amigo como poucos. Convivi com ele durante 10 dos 30 anos em que ele trabalhou no Estadão. Primeiro como chefe de reportagem, depois como editor, e sempre como amigo e aprendiz. Foi Saul quem me ensinou a degustar bons vinhos, levou-me a conhecer novos restaurantes e a apreciar, principalmente depois de conhecer esses lugares “sofisticados”, uma comida simples e bem-feita.

Saul degustava com o mesmo prazer um prato elaborado por Massimo Ferrari e um carneiro na brasa da churrascaria Peruchão, que ficava próxima ao Estadão. Gostava de rabada, de picadinho à paulista, de bolinho de bacalhau. Muitas vezes solicitava a companhia de Priscilla, minha mulher, para ajudá-lo a “testar” as sobremesas dos restaurantes que criticava. Sim, ele preferia os pratos quentes à pàtisserie. Gostava de iniciar o jantar (ou o almoço) com uma cerveja de aperitivo, mesmo que logo em seguida um vinho acompanhasse a comida. Gostava de comida simples, mas detestava restaurantes por quilo. Aquele banho-maria dos buffets, para ele, comprometia a qualidade de qualquer prato.

Por muito tempo, antes mesmo de se tornar um rosto conhecido no meio gastronômico, preferia entrar e sair anônimo dos restaurantes. Nessa época, algumas vezes testemunhei-o sendo “flagrado” pelo dono do restaurante, que insistia em não lhe cobrar pela refeição. Mesmo assim, para assegurar a independência de sua crítica, Saul voltava anônimo ao local e pagava uma segunda conta. Por ser assim, ele conquistou tamanha credibilidade.

Na Redação, ele era um bom companheiro nas manhãs tranquilas e silenciosas, quando eu era chefe de reportagem. Ele, além de crítico, garimpava diariamente as matérias do New York Times que poderiam interessar a cada uma das editorias do Estadão e do JT, manuseando folhas carbonadas saídas de um jurássico telex. O cardápio de pautas que ele preparava, com matérias candidatas a serem traduzidas e republicadas, não por acaso era chamado de “Menu dégustation”. Esse cardápio era recheado de impressões pessoais e por vezes de fina ironia.

Saul gostava de contar histórias sobre seu estágio na redação do Washington Post, nos anos 70, quando ele era um jovem repórter da editoria de Internacional do Estadão, e o jornal americano vivia seu auge, logo após o caso Watergate. Gostava de falar do São Paulo, seu time do coração desde que desembarcou em São Paulo, nos anos 60. Gostava de reclamar da vida, de reclamar do trabalho, de lamentar a perda de qualidade que o JT apresentava nos anos 90.

Mas o Saul que todos conheceram, o especialista em comidas, era uma pessoa singular. Ele era muito didático sempre que alguém na mesa demonstrasse desconhecimento em relação a essa ou aquela receita que estava sendo degustada. Seu sorriso se abria tal era seu prazer em descrever, em detalhes, o modo como aquele prato era preparado. Por isso conseguia escrever com tanta naturalidade sobre comida e receitas.

Mais que isso, era extremamente solidário. Foi ele quem me ajudou a escolher o vinho que seria servido em meu casamento. Prontamente aceitou o “sacrifício” de visitar algumas lojas da cidade experimentando alguns brancos que melhor se adequassem ao seu paladar exigente e, também, ao meu apertado orçamento. Tarefa difícil, mas cumprida com louvor por ele. Foi Saul, também, quem me deu de presente (de casamento) minhas primeiras taças de degustação padrão ISO, compradas na loja “A Queridinha”, no bairro do Ipiranga (outra virtude dele era fazer achados como esse na cidade de São Paulo).

Era um respeitado crítico gastronômico, mas topava encarar uma maratona jornalística pelas choperias da cidade, avaliando criteriosamente o chope de cada uma em busca do melhor da cidade. Ao final da empreitada, ganhei dele um termômetro para medir a temperatura da bebida, utilizado durante esse trabalho “científico”. Não hesitava tampouco diante da proposta de comandar um júri de famosos para uma degustação de uma bebida elaborada artesanalmente para a primeira edição dominical do JT. E olhe que a bebida em questão era resultante da “fórmula secreta” da Coca-Cola!

Saul viajou muito, participou de vários júris de concursos de vinhos em diversos países, mas se dependesse de sua vontade própria sempre iria a Paris, e somente a Paris. Ainda nos anos 90, comprou do colega Reali Jr. um pequeno apartamento na capital francesa, e para lá viajava religiosamente todo ano, durante suas férias, que também eram marcadas religiosamente para o mês de setembro. Paris é linda em qualquer época do ano, como diria Cole Porter, mas no outono é ainda mais bonita. Ironicamente, foi no mês de setembro que Saul se despediu desta vida, e infelizmente longe de sua querida Paris.

Aos amigos fica a lembrança e a saudade de seu inconfundível jeito de escrever, imortalizado em ‘Tintos e Brancos’ e em tantos outros livros. Mesmo se dizendo ateu, Saul, que Deus cuide bem de você, onde quer que você esteja.

Renato Delmanto

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