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Arquivo mensal: outubro 2006

Democracia, ditadura, direita e esquerda

Não sou sociólogo, nem cientista político, por isso não vou me meter a fazer qualquer análise mais embasada sobre a campanha presidencial de 2006. Mas fato é que fica difícil para qualquer mortal entender que raio de conflito ideológico é esse entre PT e PSDB.

Digo isso porque faço parte de uma geração que nasceu e cresceu durante a ditadura, aprendeu com os pais a importância da democracia e do exercício do voto. Claro que, naquele tempo, era mais fácil de se entender isso. Esta charge, tirada do livro “Aos Trancos e Barrancos”, de Darcy Ribeiro, ilustra bem a diferença.

A diferença entre direita (os militares) e esquerda (a oposição civil e os recém-anistiados) era muito mais cristalina – e maniqueísta: “eles” eram do mal e nós, do bem. “Eles” eram corruptos, nós cidadãos honestos. “Eles” eram militares, nós civis.

Assim, ficava fácil saber de que lado deveríamos ficar, nós, pessoas de bem.

O que mudou depois da redemocratização do país? Hoje não existe mais o lado do mal, ao menos personificado pelos militares e pelos políticos de “direita”. A eleição polarizou-se entre o partido que nasceu do movimento operário, dos radicais oriundos da clandestinidade e dos intelectuais de esquerda e o partido que nasceu da reunião de ilustres representantes da oposição civil e intelectualizada ao regime militar.

De um lado, um time que reunia no seu nascedouro do líder sindical Lula, um ícone nacional, ao ex-guerrilheiro Fernando Gabeira, passando pelo jurista Dalmo Dallari; de outro, um partido nascido da costela do MDB (a oposição consentida pelos militares), que reunia desde o governador Franco Montoro e o prefeito Mário Covas, passando pelo ex-líder estudantil José Serra.

Depois da eleição de Fernando Henrique Cardoso – e da aliança de seu governo com algumas das forças mais reacionárias do país, personificadas por ACM – a oposição passou a ser representada pela figura de petistas combativos, sempre alerta e prontos a denunciar quaisquer atos de corrupção, abuso de poder ou negociata envolvendo a coisa pública, principalmente no que se refere às privatizações dos serviços públicos.

A partir disso, a oposição petista passou a satanizar o governo FHC, a ponto de conseguir uma vitória retumbante em 2002, vitória de um partido de esquerda, representante legítimo das camadas mais populares, comandado por um ex-operário.

A nova oposição, satanizada e desprestigiada enquanto ex-governo, teve dificuldades em encontrar seu mote de crítica, diante da unanimidade que se instalou, junto à população, em relação ao governo petista, nos seus primeiros meses de Planalto. Só veio encontrá-lo quando o próprio PT, no exercício do poder, demonstrou que era tão ou mais corruptível que os governos anteriores.

Isso fez com que se criasse um nó na cabeça das pessoas.

O partido que era guardião da ética na política institucionalizou o descambo no trato da coisa pública; os líderes de esquerda, que foram perseguidos, calados e até exilados pela ditadura, demonstraram um gosto pelo autoritarismo, uma repulsa voraz às críticas e uma tendência incontida a coibir a liberdade de imprensa; o partido que tanto denunciou as maracutaias e negociatas envolvendo a máquina estatal foi o que mais aparelhou órgãos públicos, sempre com quadros do partido, mas quase nunca com a capacitação profissional e com a lisura moral adequadas a esses cargos.

Na cabeça do eleitor sobrou a confusão. Os papéis foram trocados, e não ficou muito claro para o cidadão comum se a oposição de hoje (o PSDB) era mesmo tão cruel e malvada – ainda para mantermos a linha de raciocínio maniqueísta – quanto a propaganda petista tentou mostrar em 2006. E o pobre eleitor consegue, muito menos, entender o que moveu o partido no qual depositara sua esperança em 2002 ao descambo de maneira tão acintosa, e ainda bancar o santo inocente no horário eleitoral gratuito.

Como disse no início, não sou cientista político, nem sociolólogo, mas vejo nessa troca ou confusão de papéis o risco da tentação de se buscar uma solução populista, já que o debate ideológico e político deu lugar à discussão do assistencialismo, da inclusão, da distribuição de renda, das políticas sociais e só.

Não importa ao eleitor que a contrapartida dessas políticas sociais seja fazer vistas grossas às questões éticas, seja entender como natural os desmandos que no passado nos indignaram. A incompetência da oposição em levantar o debate aprofundado – provavelmente também por despreparo, medo de cobranças pelo período em que foi governo ou receio de não ter condições de enfrentar uma discussão de idéias de fato transformadoras – também chama a atenção.

Um comentarista político, dia desses, definiu o PT e o PSDB atuais como primos, com pequenas diferenças de fato entre eles. Mas que, por diversas razões, se julgam inimigos mortais, e fazem dessa rivalidade sua razão de existir. Mal comparando, é como se fossem israelenses e árabes.

O problema é que, nessa disputa cega, os reais interesses do Brasil e do povo sejam esquecidos. A necessidade de mudanças estruturais e de fato transformadoras da sociedade acaba substituída por um ilusionismo de números e feitos pseudo relevantes. De ambas as partes. E pior, com o aval de intelectuais importantes, principalmente do lado petista, que seguem com o discurso da diferença ideológica histórica, do fato de o partido ser “de esquerda”. Mas, de novo, nenhum deles consegue explicar o apoio recebido de figuras como Delfim Netto e Paulo Maluf.

Para encerrar, publico outra charge tirada do livro “Aos Trancos e Barrancos”, que ilustra bem o nível de debate que estamos tendo atualmente. (Em tempo: a charge é de 1980.)

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Publicado por em 24/10/2006 em Uncategorized

 

Que ‘crítica’ é essa?

Há um bom tempo não vou ao cinema. Por uma conjunção de fatores: preguiça, desinteresse, comodismo (a tv a cabo e o dvd dão mais conforto). Eu poderia até culpar minhas filhas pequenas, que me requisitam em casa, mas seria uma enorme injustiça com elas. Mesmo assim (e isso são ossos do ofício), pergunte-me sobre qualquer filme em cartaz que saberei responder.

Ou melhor, no passado eu saberia. Hoje tenho pouco mais que uma vaga idéia. Sinto saudades do tempo em que comecei no jornalismo, tempo em que ler e “fechar” uma crítica de cinema era um momento de aprendizado e prazer. Tempo em que você precisava aprimorar seu conhecimento antes de perpetrar uma crítica.

Não tive a sorte de trabalhar ou conviver em redações com críticos do naipe de um Décio de Almeida Prado ou um Sábato Magaldi. Mas lembro-me especialmente de alguns críticos que eram verdadeiros mestres na arte de escrever. Um deles era o saudoso Edmar Pereira, que escrevia com tal paixão que a gente ficava com vontade de assistir ao filme mesmo que fosse ruim. Poucos coleguinhas, hoje, são tão hábeis no trato das idéias e palavras quanto ele era.

Parece que esse tempo se foi. Hoje, quase não se consegue mais ler uma crítica e saber simplesmente se o filme vale o ingresso ou não. Como editor, reclamo da dificuldade que é dar título a essas críticas – reparem como os títulos das críticas são cada vez mais focados nos detalhes, não na essência da obra. Como leitor, reclamo da falta de sensibilidade ou preparo dos autores dos textos.

Não que todo filme (ou peça teatral ou show) deva ser tratado como grande obra de arte. Há muitos que de fato são mero entretenimento. Mas isso não significa que o crítico deva por isso limitar-se a elencar dados. Hoje em dia, ao ler uma crítica, você fica sabendo quanto foi gasto na produção e em publicidade; quantos milhões faturados nos EUA; que efeitos especiais foram usados, etc., etc. Fica-se sabendo tudo, menos se o filme é bom ou ruim.

Muito disso deve-se aos press releases, que já vêm com essas informações, ou à facilidade da Internet – dois ulititários que podem se tornar nefastas influências a coleguinhas menos brilhantes. Tudo bem, é importante para o leitor receber informações como essas, mas é mais importante ter a referência básica se o filme merece ou não ser visto. É isso que o leitor espera da crítica.

Nossa imprensa atual trocou a argumentação pelas estrelinhas – de uma a cinco, indicando uma obra de fraca a ótima. Será que isso basta? As estrelinhas são desprovidas de qualquer argumento. E quando o leitor não concorda com a opinião do crítico, como fica?

Voltando ao saudoso Edmar Pereira, ele nunca recorreu às estrelinhas, preferia a argumentação. Lembro-me de quando escreveu que o filme ‘Robocop’ era uma das obras de ficção mais revolucionárias da década de 80. Debati com ele, antes de “descer” a matéria, que revolucionário era ‘Blade Runner’. Edmar rebateu que ‘Blade Runner’ era cult, enquanto ‘Robocop’, não: tinha feito sucesso de público, dosava bem elementos da ficção, mesmo que absurdos (cérebro do policial morto é implantado num robô), violência e crítica ao status quo (quando o robô descobre que até seus criadores são corruptos). Colocou isso no texto, acabou me convencendo e, acredito, convenceu o leitor também.

Não quero dizer aqui que a crítica (em geral e a cinematográfica em particular) tenha acabado. Há alguns lampejos de talento cada vez mais esparsos nas edições dos jornais diários.

Seria fácil culpar os cursos de jornalismo, que não dão a formação básica para um jornalista desenvolver carreira na área cultural. Mas não é culpa das faculdades – elas têm culpa, sim, de dar diploma a coleguinhas que não dominam minimamente a língua portuguesa (mas isso é outra história). Mas as escolas não têm culpa da falta de berço cultural dos alunos (como professor, é triste ter de concordar com isso).

Culpa é dos próprios jornalistas recém-formados, que dão a impressão de nem perceber que o mundo está passando diante deles; culpa é dos editores, que jogam um garoto ou garota de 20 anos na cova dos leões e os denominam “críticos”; culpa é das empresas, que endossam a troca de gente experiente por jovens em funções-chave.

Se o foca for medianamente esperto, consegue enganar seus chefes e colegas – mas não por muito tempo. Chega um dia em que encontra um editor com melhor formação, que vai descobrir o engodo, vai perceber que ele não conhece o assunto tanto assim… Às vezes, tarde demais, quando já foi criado o monstro. (É claro que o editor pode mandá-lo às favas, mas o nome dele já está “feito” no mercado, e vai continuar enganando em outra freguesia…)

Acima de tudo, falta humildade a esses jovens críticos e, principalmente, aos aspirantes a crítico – que parecem só absorver os vícios e os chavões, quase nunca a inventividade, dos ditos veteranos. Essa humildade até o mais sábio, o mais conhecedor jornalista tem. E por que o pirralho não pode ter? Falta a ele também, muitas vezes, mais que maturidade e bom senso, honestidade.

Meu primeiro editor, na Veja, Mario Sergio Conti, era uma pessoa de difícil trato – ao menos com os focas como eu (e olha que os focas daquele tempo eram melhores que os de hoje). Criticávamos seu jeito durão, seu mau humor, sua rabugice. Mas um texto dele em especial guardei na memória. A resenha (na Veja evitava-se, na época, o termo crítica) de ‘Ran’, de Kurosawa. Era um texto tão brilhante quanto o próprio longa do gênio japonês. Dali em diante, percebi por que eu era subordinado e principalmente por que deveria me subordinar ao Mario Sergio: em respeito ao seu talento e à sua capacidade.

Graças a experiências como esta e a colegas como Edmar Pereira aprendi a fazer o meu trabalho, a escrever e colocar minhas idéias no papel e a editar pensando sempre no leitor. Também graças a isso sofro com textos que não dizem nada.

Talvez por isso também não tenha ido muito ao cinema ultimamente…